
Josefa Garcia Greno (Pintora luso-espanhola naturalista que fez parte
do Grupo do Leão, 1850–1902), Jarro com rosas, s. d.
Anima Mea
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.
Era de ver a fúnebre bacante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»
— Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).
Eu não busco o teu corpo... Era um troféu
Glorioso de mais... Busco a tua alma —
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»
Quando o pai, o capitão-general José Garcia Saéz morreu, ela tinha apenas 4 anos de idade. Josefa e a mãe, Maria Seone, foram viver para Corunha e residiram na Galiza seis anos. Retornaram à Andaluzia e moraram em Sevilha. Aí Josefa aprendeu a ler, a escrever, a bordar e a desenhar num dos melhores colégios espanhóis, chegando a escrever e publicar contos e poemas.
O regresso delas a Sevilha deu-se durante a queda da Primeira República Espanhola e o restabelecimento da monarquia com Afonso XII — a instabilidade reinava em Espanha, o regime republicano duraria apenas onze meses, espaço de tempo em que o país enfrentou três guerras civis. Talvez temendo a insegurança, optaram por se instalar em Lisboa, devido à Terceira Guerra Carlista. Na capital portuguesa, Josefa recorreu à alta costura e aos bordados como forma de sustento para ela e sua mãe.
Por volta de 1870, conheceu o seu futuro marido, o pintor Adolfo César de Medeiros Greno, que estudava pintura na Academia de Belas-Artes de Lisboa.
A 18 de setembro de 1876, aos 26 anos, casa, na Igreja de Nossa Senhora do Socorro, em Lisboa, com Adolfo Greno, de 22. No mesmo ano, ela mudou-se para Paris com a mãe, para que Adolfo, discípulo do romântico Miguel Ângelo Lupi, prosseguisse seus estudos e onde serve de modelo para os quadros dele. Adolfo iria beneficiar da bolsa de Pintura Histórica que ganhara, passando a ter por mestre Alexandre Cabanel, seguidor dos modelos clássicos greco-romanos. Entretanto este começou a desleixar os estudos e o trabalho, frequentando cada vez mais a noite boémia da cidade e deixando de cumprir prazos de entrega. Este comportamento fez com que perdesse em 1881, a bolsa de estudo que lhe fora atribuída pela Academia de Lisboa. Josefa ao ver que a família não podia depender do marido para se sustentar, decidiu aprender a pintar.
Josefa foi admitida na Société des Artistes Français graças ao quadro que apresentou de uma paisagem. Nesta altura, conviveu com os pintores Columbano Bordalo Pinheiro e Artur Loureiro e viu o seu trabalho trabalho ser reconhecido. É deste período o quadro Um Concerto de Amadores
pintado por Columbano, no qual o casal Greno aparece por sugestão de
Loureiro, Josefa é a figura feminina que se encontra ao lado do
pianista, olhando para baixo.
Josefa Greno dedicou-se especificamente à pintura de flores, como mimosas, peónias, malmequeres, entre outras. Em 1884, participa na XIII Exposição da Sociedade Promotora das Belas-Artes, onde chamou a atenção dos organizadores do evento pela sua técnica, especialmente pelas cores que utilizava e a maneira de como trabalhava a luz nas suas telas. É premiada com uma medalha e torna-se um sucesso de vendas superior a José Malhoa.
Ela regressa a Portugal em 1886 e nesse ano apresentou quadros na VI Exposição Quadros Modernos, organizada pelo Grupo do Leão, para o qual foi convidada por Silva Porto. Passou a ser uma das Senhoras Leoas, nome pelo qual são conhecidas as mulheres artistas que faziam parte do grupo, nomeadamente: Berta Ortigão, Maria Augusta de Prostes Bordalo Pinheiro e Helena Gomes.
Josefa tornou-se uma pintora aclamada, a quem não faltavam encomendas e os seus quadros vendiam-se rapidamente. Ensinou pintura e entre os seus discípulos encontram-se o pintor naturalista Simão Luís da Veiga e a pintora Júlia Hermínia da Conceição Xavier. Até 1901, é uma presença constante nas exposições organizadas pelo Grémio Artístico e pela Sociedade de Belas-Artes, tendo frequentado os salões da elite cultural lisboeta da altura, convivendo com escritores como Fialho de Almeida e expondo ao lado de artistas como Columbano Bordalo Pinheiro, José Malhoa, Silva Porto, Fanny Munró, entre outros.
Enquanto Josefa atingia um elevado sucesso profissional, o marido tinha um percurso contrário, gastando as poupanças da família. Tanto os amigos mais próximos do casal quanto os conhecidos consideraram que a maior crise nervosa de Josefa ocorrera em 1895, altura em que o marido se apropriou indevidamente das poupanças que ela arduamente tinha conseguido reunir. Em 1897, a crítica começou a levar em conta o que se dizia a propósito da sua decadência a nível familiar, não tendo participado no Grémio Artístico de 1899, ano em que a mãe, que sempre a acompanhara, mesmo em Paris, morreu, facto que abalou a pintora profundamente. Maria Seone já passava dos oitenta anos. Josefa nunca mais pegou nos pincéis.
Na noite de 7 de abril de 1901, Josefa desferiu um tiro sobre o marido, não o atingindo. O sucedido não teve efeito em Adolfo, visto que este tipo de intimidações mútuas eram comuns entre o casal. Josefa participa ainda na primeira exposição da Sociedade Nacional de Belas-Artes, que inaugurou a 15 de maio de 1901, não recebendo nenhuma medalha.
Após vários anos de suplício, na noite de 25 para 26 de junho do mesmo ano, Josefa Garcia Greno atinge o marido com 4 tiros, criando, no concreto, a sua última natureza-morta, ficando o sucedido intitulado como "o horrível crime da Travessa de São Mamede" ou como o "caso Greno", sendo alvo de vários folhetos de cordel. Os quadros expostos na Sociedade de Belas-Artes foram todos adquiridos depois do fatal dia de 26 de junho. Teria dito:
"Por ele me sacrifiquei e me fiz pintora… Trabalhei muito… até chegar à última pintura, que foi esta", acrescentando: "Roubou-me a alegria e a confiança, tudo o que uma mulher pode ter de mais sagrado. A minha vida era impossível com um mentiroso... Sofri muito. Sofro muito! (...) Ele gastava todo o dinheiro que eu ganhava. Era um desequilibrado. Não podíamos viver bem. A mulher tem os seus direitos." Foi levada para a Prisão do Aljube e no rol dos depoimentos, o seu cunhado, Carlos Greno, depõe a seu favor.
Foi transferida para o Hospital de Rilhafoles a 2 de julho de 1901 e Miguel Bombarda, aclamado psiquiatra e diretor daquele hospital, proibiu-lhe as visitas, não tendo ninguém retornado a ver Josefa com vida. O seu caso foi estudado por Bombarda que declarou tratar-se de um delírio. O psiquiatra recolheu vários pareceres de célebres congéneres estrangeiros, como Cesare Lombroso, Emil Kraepelin e Eduard Hitzig. Terminado o processo médico-legal, Josefa foi declarada como insana pela maioria dos jornais da época, sendo a sua imagem cruelmente denegrida por Maximiliano Lemos na sua entrada da Enciclopédia Illustrada, dados mais tarde eliminados na Grande Enciclopédia portuguesa e brasileira.
Pouco tempo depois, é-lhe diagnosticado o mal de Bright (afeção renal), a que se somava a decadência mental. Sete meses depois de ser internada, Josefa Garcia Greno falece às 21 horas de 27 de janeiro de 1902, aos 51 anos, no Hospital de Rilhafoles, à data situado na freguesia da Pena, em Lisboa. No dia seguinte é realizada uma autópsia pelo próprio Dr. Miguel Bombarda, que, mais tarde, a 1 de fevereiro, sob a sua presidência, realiza uma sessão na Sociedade de Ciências Médicas, sendo o principal orador na exposição do caso da pintora. Na mesma sessão, Silva Amado, denota na análise à autópsia que Josefa tinha um coração com mais do dobro do peso e medida de um coração feminino.
A 29 de janeiro, é publicado no Diário Illustrado, o seguinte artigo noticioso, acerca de sua morte: "(...) faleceu no hospital de Rilhafoles D. Josefa Greno. Eis o último quadro desse drama que tão profundamente nos impressionou. A morte, descendo sobre ela, deixou ainda uma terrível interrogação: Uns hão de responder a ela com a palavra crime, outros, mais piedosos, e por isso mesmo talvez mais sábios, com a palavra desgraça; e outros, ainda, hão de ver nessa interrogação a mais perfeita resposta... Seja, porém, o que for. O que é certo é que esse perturbado coração de mulher se há de ter encontrado já face a face com a Verdade: e oxalá que, à sua luz, ele tenha encontrado em si, não sangue, mas lágrimas somente". (daqui)
Josefa Greno, Vaso com flores, s.d.
"As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros."
Oscar Wilde
[Escritor, poeta e dramaturgo irlandês, 1854–1900]


Sem comentários:
Enviar um comentário